“Sem pressa, mas sem pausa”

“Sem pressa, mas sem pausa”


José Luis Trechera quando escreveu A sabedoria da tartaruga em 2007 trouxe para nós conceitos enriquecedores que dizem respeito a nossa conduta de vida, auto-realização e sucesso. Ele aborda nesse livro como deixamos o tempo nos escravizar, como se nos sentíssemos criados apenas para trabalhar. Esse é um dos meus paradoxos, pergunto-me muito se gosto mais de trabalhar ou do ócio... ou ainda, de contemplar a vida – E aqui estão envolvidas todas as prioridades como minha família. Sempre penso que gosto dos três de maneira equilibrada, mas na prática essas coisas se misturam e a balança sempre pesa mais para um lado, e acabo somando mais horas para empreender.

 

E faço isso, não porque sinto que nasci para o trabalho, mas porque vivemos num regime social em que é costume trabalhar muito para sobreviver.

 

Todos os dias, busco notícias e histórias de empreendedores que me fazem ter cada vez mais gás para continuar empreendendo no mesmo ritmo. Não é fácil manter a chama acesa pelo negócio, no meu caso, mesmo amando o que faço e a maneira como participamos da vida das pessoas e dos seus momentos de autoestima e autorealização, mesmo relembrando a nossa trajetória, do ponto do qual saímos e aonde chegamos. Mesmo com toda essa gratidão continuo buscando estímulo diário para seguir.

 

A minha concepção a respeito de empreender está muito ligada à criação de valores e tendências, ao reconhecimento do público que acessa o produto das nossas empresas, conteúdo ou serviço e a maneira como o desempenho das nossas ações influencia no ambiente aonde nos movimentamos. Então tenho visto de tudo no mercado.

 

Marcas perseguindo o próprio rabo, perdendo a oportunidade de olhar para os lados e entender melhor sua realidade e a dos que fazem parte da cadeia do seu negócio. Outras perdendo tempo ou seria o time, para virar o disco, porque afinal de contas, virar o disco exige uma demanda, um movimento, uma atitude envolvida. Muitas vezes queremos mudar e não compreendemos ou demoramos a perceber que para mudarmos não basta querer.

 

Entretanto, espanto-me com a criatividade de tantas empresas pequenas e grandes, como as pessoas resistem, sonham e buscam sucesso. Muitos capricham, vislumbram, criam objetivos baseados na prosperidade a qual plantam para colher. E isso é muito massa, então olhar o que está bom ou ruim e balizar pelos nossos olhos e pela nossa compreensão de mundo nos ensina muito. A falta do outro, o excesso, o acerto! Ser antenado tem suas vantagens.

 

Cada vez mais enfrentamos esse mundo de possibilidades para construir algo a mais ou diferente ou quem sabe reaver essências de outros tempos que agora fazem falta, enfim, é preciso lidar com os empecilhos ou ver estes como catapultas que nos levarão ao que vejo como bote salva vidas dos empreendedores que curtem o que fazem... que seria o ato de criar soluções.

 

Nem estou falando de tecnologia, estou falando de conexões. Gerar uma ligação da sua marca com as pessoas e receber o resultado dessa relação como algo maior. Penso que assim ampliamos a nossa capacidade em investir no negócio, porque nos sentimos necessários. E dentro do meu paradoxo de refletir a questão do tempo, contemplá-lo ou trabalhar muito, busco sentido porque enxergo pontos de realização e como o lado pessoal pode ser amarrado ao profissional de maneira que não seja desgastante.

 

Um novo modo de pensar e que tem me desafiado com afinco.

 

No final de 2019 quebrei o pé, foram quase seis meses de recuperação. Literalmente, parei... e lógico que não entendi nada, fiquei brava, queria sair correndo sendo que sequer podia pisar no chão. O pé quebrado veio como uma preparação para o baque pandêmico. Tudo mudou ainda mais e claro que teve estresse, e foi difícil aceitar que quando eu estaria voltando a loucura viciante da minha correria, o mundo estava engatando a primeira marcha.

 

E além da paciência, da abstinência pelo estado acelerado, da nova rotina com os filhos, das responsabilidades com as quais havia me desacostumado, pude trabalhar a coragem e bravura como mãe, esposa, mulher, amiga, irmã e como empreendedora. A grande luta é a de nos mantermos essenciais para nós mesmos.

 

Tenho aprendido que escutar é muito bom, ver a maneira como os outros lidam com as demandas do mercado tem sido uma escola. E chegam coisas boas e coisas ruins. O jogo aqui existe na tentativa de através do conhecimento e experiência adquiridos, moldar os nossos comportamentos. Piaget e Puig quando relatam suas acepções acerca de juízo e moral pensam o ser humano sendo construído de maneira que o que somos hoje será a nossa base de como agiremos amanhã.

 

As experiências, sendo elas boas ou ruins, passam a acrescentar em nós resultados que implicarão em nossos comportamentos e que guiarão nossos passos.

 

Trazendo a questão para o mercado empreendedor entendemos que cada indivíduo que nasce no mercado aprende as regras que foram fundadas há mais tempo. Gosto muito de quando Piaget reflete a questão da moralidade e como as crianças desenvolvem a consciência de respeitar as regras morais. Piaget (2007), afirma que “as regras morais que a criança aprende a respeitar, são transmitidas pela maioria dos adultos, isso significa que a elas já chegam elaboradas, porém não na medida de suas necessidades e interesses, mas de uma única vez através da sucessão ininterruptas das gerações adultas anteriores”. 

 

Então, quando observo o mercado de longe, percebo os movimentos da vez, que são muito legais e fazem parte da proposta de crescimento do negócio e das nossas capacidades pessoais, mas de certa maneira, percebo uma submissão às regras.

 

Piaget (2007) analisa que até determinado momento a criança se estabelece diante das regras criadas pelos adultos até que chegue a sua fase de autonomia, que é quando a coisa começa a ser construída de maneira mais igualitária, mútua, colaborativa, então daí se percebe uma nova capacidade delas em lidar a partir da reflexão das regras e não apenas a partir da obediência. Estou falando aqui de autonomia camaradas.

 

E eu falei isso tudo pra dizer que ainda vejo um mercado para ser desbravado, e mesmo sobre as trilhas que parecem prontas, penso que podem ser melhoradas ou reestruturadas. Não é porque quero saber de tudo, vejo tudo, etc, é porque entendo e tenho percebido movimentos naturais que surgem com os períodos de evolução da sociedade. Modinha chega, modinha sai, valorizamos o perfeito, depois entendemos que isso chega a ser cruel e nos permitimos ver o mundo de outra maneira. Claro que não é homogêneo, se todos nós mudássemos juntos seria como uma ficção com final felissississimo como diria o Chaves.

 

O mercado consumidor tem evoluído com uma indústria que começou a se movimentar ainda no século XVIII na Inglaterra, transformando matéria-prima em produtos comercializáveis, o Brasil elevou seu nível industrial em meados do século XIX.  

 

Nesse mercado maluco, quando a grana se torna o centro, não se tem tempo para tomar fôlego, curtir o que se constrói ou refletir sua caminhada. A coisa fica automática, você passa a cumprir as regras, perde sua autonomia, se perde nas ações, vende o almoço e paga a janta. É cruel, mas é isso.

Piaget e Puig refletem que a criança que perde de ser influenciada pelo afeto e pelos limites pode ser o adulto de amanhã que precisará de terapia para compreender diversas questões que não existiram no seu projeto de crescimento.

 

Quando fazemos disso uma analogia para o mundo dos negócios, pensando que o empreendedor não conhece seus limites de superação, suas possibilidades, suas capacidades, que vive as regras, que desconhece seu nível de autonomia, sua gana de respirar fora da caixa, o momento de diminuir ou aumentar seu ritmo de dedicação dá para imaginar que ele provavelmente precisará de ajuda para se encontrar.

 

Aqui a gente pausa e vem a pressa, mas estamos estagnados, porque travamos?

 

Quero essa autonomia de buscar meu próprio tempo, decidir a velocidade para os contextos em que estou inserida. Desejo labutar para estabelecer como as minhas horas de vida serão aproveitadas. Contemplar, trabalhar, crescer, continuar como pequena empresa. Tenho aprendido que velocidade não é tudo. Então, façamos sem pressa, mas sem pausa. Por que não?

 

Sêneca afirmava: “Pensa que cada dia é, por si só, uma vida”. Percebi no movimento slow motion em que me encontrei que dá pra fazer sem se sacrificar tanto. Que não tem problema ficar e se sentir perdido, que o importante é seguir, continuar com uma rotina energizante, buscar em si mesmo e no outro também (porque não?), a motivação que reconhecermos pode ser o remédio certo para cada momento em que nos sentimos desanimados.

 

Ando reinventando maneiras de olhar para o mundo e me fortalecer, o poeta já cantava “saiba que ainda estão rolando os dados porque o tempo, o tempo não para” (Cazuza/1988). Tenho a ideia de que sempre seremos contraditórios, a cada dia que passa vejo como somos feitos de construções e desconstruções. E que bom que somos assim, porque é assim que nos convencemos de que podemos mudar, aliás, de que tudo pode mudar.

 

Referências

PIAGET, J. O juízo moral na criança. Tradução Elzon L. 2. ed. São Paulo: Summus, 1994.

PUIG, J. M. A construção da personalidade moral. São Paulo: Ática, 1998.

Trechera, José Luis. A sabedoria da tartaruga: sem pressa, mas sem pausa. Trad. Diogo de Hollanda. São Paulo: Ed. Academia de Inteligência, 2009.

Ariane Galdino, jornalista, empreendedora e curadora do blog. - 20/08/2020

Comentários


Maurisílvia Holanda

Ari, você me surpreende mais e mais a cada dia. Parabéns, amiga! Te admiro muito.

Sucesso sempre...

21/08/2020 02:25

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