Arquitetura é a rebeldia que conecta a nossa intimidade com o resto do mundo!

Arquitetura é a rebeldia que conecta a nossa intimidade com o resto do mundo!


Experiências arquitetônicas são vivenciadas a todo momento. Embora muitas vezes você não perceba. Essas experiências podem acontecer na sala de estar, na cozinha, no quintal, caminhando pela rua, no interior de um prédio ou de um templo. Como isso acontece?

 

 

Se a televisão está colocada numa posição que não te deixa confortável, se o ato de fazer uma salada se torna uma maratona cansativa, se o quintal te traz mais afazeres do que momentos de lazer e descompressão. Ah! Numa caminhada inocente numa rua deserta, já teve a sensação de perigo iminente? Já teve que fazer adaptações em casa por causa das crianças? Então o assunto é com você!

 

 

Vivemos em espaços planejados majoritariamente por homens, embora o Censo do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de 2020 comprove que apenas 36% dos profissionais de Arquitetura e Urbanismo são do sexo masculino, e, consequentemente, 64% do sexo feminino.

 

 

Você consegue pensar no nome de 3 arquitetas?  Assim como em outras profissões a Arquitetura Nacional e Internacional transforma as arquitetas em mulheres invisíveis. E olhando para a minha jornada, ainda como acadêmica de arquitetura consigo identificar que as mulheres não têm lugar de igualdade e sequer um lugar de destaque e representatividade. Basta dar um Google e verificar as listas de arquitetos premiados.  O prêmio Pritzker criado em 1979 para premiar arquitetos de destaque mundial premiou apenas em 2004 Zaha Hadid a primeira mulher, feito que voltou a acontecer somente em 2017 com Carme Pigem e em 2020 premiou as irlandesas Yvonne Farrell e Shelley McNamara.

 

 

Ser mulher em meio à sociedade historicamente patriarcal e numa profissão por muitos ignorada como essencial é ter que justificar dia após dia, cliente após cliente que “(...) a função da arquitetura não é apenas prover abrigo físico, facilitar a realização das atividades humanas e estimular os prazeres sensoriais.”, mas ter que provar que a arquitetura vai além do esteticamente belo e funcional e é responsável por estruturar nossas experiências existentes bem como estruturar nossa forma de viver a cidade de forma estratégica, humana e segura. Ou seja, o espaço urbano planejado por homens na maior parte das situações negligencia o uso e as necessidades femininas do espaço.

 

 

Diante dessa constatação retomo ao ponto inicial da minha jornada na arquitetura, quando em uma das minhas leituras me deparei com o seguinte fragmento:

 

Ninguém se interessou em saber o que queríamos quando construíram este lugar. Eles demoliram nossas casas e nos puseram aqui e puseram nossos amigos em outro lugar. Perto daqui não há um lugar para tomar café, ou comprar um jornal, ou pedir emprestado alguns trocados. Ninguém se importou com o que precisávamos. Mas os poderosos vêm aqui, olham para esse gramado e dizem: Que maravilha! Agora os pobres têm de tudo! (JACOBS, 2000, p.14)[1]

 

Precisamente nesse parágrafo, eu fui tocada por questões que são muito mais amplas do que o planejamento de uma casa, de um conjunto habitacional, da imposição de espaços que muitas vezes não refletem as necessidades e muito menos as expectativas dos usuários. Casas padronizadas para necessidades e composições familiares distintas. Em uma das visitas que fiz, ainda como socióloga, a uma edificação multifamiliar  vertical (prédio), observei que não tinha local para colocar o botijão de gás dos apartamentos, e questionei para o responsável onde eles ficariam, ele me apontou para um lugar aleatório e novamente o questionei: você sabe que nessa área os roubos são recorrentes? Os botijões ficarão expostos? Lembro-me da cara dele com um deboche para questões que ele não sabia responder. Questões como essa me levaram a buscar uma segunda graduação para compreender como as coisas funcionam e aí me encontrei.

 

 

Fazer arquitetura, é antes de qualquer concretude entender aspectos psicológicos, emocionais, sociais e econômicos. Aspectos que compõem a memória e a identidade pessoal, tornando-se pessoal e intrasferível. A nossa evolução pessoal está diretamente ligada às nossas conquistas espaciais.

 

 

O primeiro “endereço” ou espaço ocupado pelo indivíduo é o seu quarto, seu berço e por vezes as suas primeiras tralhas são os presentes fornecidos por parentes e pessoas próximas. Umas pelúcias, uns brinquedos coloridos e barulhentos, aos poucos vão dando vida para o espaço ocupado. À medida que a criança cresce ela amplia consigo o seu espaço de domínio – conquista-se a sala, a cozinha e ainda na primeira infância as varandas e quintais vão ganhando mais um hospede. Os espaços de convivência vão sofrendo transformações, os brinquedos da primeira infância como os triciclos, patinetes, dão espaço para as bicicletas, motocicletas, carros.

 

 

Desbravamos nosso universo e vamos adequando os espaços para as necessidades de cada fase, ampliamos o nosso espaço de conquistas e ampliamos as demandas que saem do nosso domínio doméstico, ampliamos as nossas raízes para outros espaços – escola, escola de esportes, parques, espaços de consumos. E assim enraizamos nossas memórias em tudo o que pode fazer com que as nossas sensações e emoções ganham materialidade.

 

 

A arquitetura traz em sim a materialidade dos sonhos, expectativas e sensações. É por meio da constituição da arquitetura que conseguimos demarcar onde estabelecemos as nossas raízes, as nossas memórias. Conseguimos por meio da materialidade arquitetônica criar os cenários das nossas emoções, descrever paisagens e permanecer em busca daqueles elementos que tornaram possíveis aquelas emoções jamais esquecidas.

 

 

Não é raro lembrarmos de situações singulares, de elementos que em outra situação seriam meros objetos sem significado, entretanto, compostos e organizados em determinada situação é possível atribuir-lhes características pessoais e singulares.

 

 

Costumo trabalhar com a ideia de que as casas de revistas, não são um modelo genérico para se seguir, uma vez que cada família, cada indivíduo tem características e memórias individuais. Podemos ter seguido os mesmos caminhos das pessoas que nos circundam, entretanto, embora pelo mesmo caminho, as emoções e experiências são vividas de forma individual e pessoal. Em tempos de mudanças sociais e individuais, como o momento em que nos encontramos, talvez os indivíduos tenham a correta compreensão que os nossos espaços são ímpares e não podem ser meras representações de páginas de revistas. Os espaços, sejam domésticos e ou comerciais, carecem de identidade – seja do indivíduo, seja da marca representada. Não existem fórmulas mágicas vendidas em potinhos. É necessário autoconhecimento para que seja possível usufruir de forma genuína dos espaços ocupados.

 

 

Confesso que envolvida pela paixão pela arquitetura e pelas possibilidades reais de transformação da sociedade iniciando na menor célula – o domicilio e expandindo para espaços maiores, muitas vezes me perco e esqueço das reais dificuldades impostas pelo exercer a profissão numa sociedade machista e muitas vezes misógina. Em meio à nossa atual conjuntura, confesso que me questiono dia após dia sobre a viabilidade e a validade de permanecer na profissão onde é preciso provar diariamente a nossa capacidade técnica e intelectual para ir além dos adornos, composições de quadros e firulas domésticas. A arquitetura vai além de ornar ambientes, de escolher paletas de cores e papéis de parede, como aparece de forma glamourizada.

 

[1] JACOBS, Jane. Morte e Vida de Grandes Cidades. São Paulo: Martins Fontes, 2000

Joyce Costa, Arquiteta e Urbanista; Socióloga; Mestre em Desenvolvimento Social pela Unimontes; Master em arquitetura e Lighting. - 12/03/2021

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